Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Domingo à tarde

Não gostas, queres ver!

14.04.18

E quando algo nos deixa de pertencer?


pexels-photo-892541.jpeg

Tenho me deparado nos últimos dias com uma realidade que, além de dilacerante, é complicada de aceitar.

Na minha vida, não fui muito viajado, nem tive o conhecimento de mil homens para andar aí a gabar-me do que quer que seja. Não tenho o curso superior completo mas tenho vontade de estudar, estudar muito, de preferência para o resto da vida, em diversas áreas do conhecimento e do saber. Aparte disto, vivi grande parte da minha vida (até certa altura) numa vila, quase aldeia (agora quase só durmo) e pouco ou nada vivi e vi numa cidade, mesmo morando relativamente perto de Lisboa.

Aos 17 decidi ir fazer o 12º numa escola diferente, numa cidade, onde pudesse abrir a cabeça ao meio e expandir qualquer coisa para além de mim. Não foi bem aceite por quem não quer mexer muito na normalidade das coisas, sobretudo ter uma formação quase toda num sítio e "manchar" o currículo por um ano noutro. Impossível aceitar.

No que toca à Universidade, fugi para Lisboa. E aí deu-se uma revolução na minha vida. Passei dia e noite naquela cidade, estudei, diverti-me, brinquei, namorei, conheci toda a rede de transportes, naveguei com gente de todo o lado. O pior era quando regressava.

Encontrava uma corrente de pensamentos que se perpetuava no tempo. As mesmas histórias, a mesma forma de contar, a mesma forma de fazer, a mesma forma de ser e estar na vida - eu era um estrangeiro no meu próprio país.

Era excêntrico, renovador, radical e vivia numa bolha que extravasava muito para além da bolha dos outros, e isso era um problema.

É difícil furar uma forma de estar que resiste, quando não é necessário que seja de outra maneira. É difícil mudar a mentalidade de alguém quando, mais que a comodidade, chega-lhes perfeitamente para viver e coexistir. Tão difícil como eu agora descer à Terra para ver que existem pessoas que não querem saber mais do que já sabem.

Eu sou muito novo, quase nos trinta, e estou numa fase em que posso gozar a vida, mas com deveres agravados. Em que a malta mais nova já nos olha com algum respeito mas que ainda nos vai dando chutos nas canelas.

Apesar disso, o tempo vai-me trazendo cada vez mais as pessoas e cada vez menos a Lua.

E eu não quero perder a simplicidade, muito menos a capacidade de me moldar à realidade onde me encontro. Não quero ser banal numa cidade grande, nem estrangeiro num sítio que me é familiar. Quero poder estar onde tenho de estar, e ser para mim e para os outros alguém capaz de captar a essência do espaço e a forma de estar. Quero viver no limbo entre ser quem sempre fui mas com upgrades à mistura.

Porque não há nada pior do que sentirmos que há coisas que já não nos pertencem, não é?