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29
Jan18

Os autocarros da vida

David Marinho

Ontem, antes de embarcar no autocarro em Braga para Lisboa, vi os abraços emocionados de quem parte e de quem fica. Há qualquer coisa no sentimento de perda, de distância que é anti-natura. Há algo que permanece incólume aos olhos de quem fica, que pesa, mói e envelhece. Não é fácil deixarmos quem amamos, certo? Mas nada nos prepara quando elas fogem para longe pelas mais diversas razões. E são estas coisas que me fazem achar que as tecnologias nunca conseguirão realizar: tornar físicas as emoções, que nenhum algoritmo computorizado consiga desvendar. Os olhos humedecem só de olhar, e isto seria desvendar uma razão que permanece intocável, que vai muito para além de uma ideia feita. O trabalho, os estudos, a vida vai começando a desviar-se das pequenas povoações, as oportunidades fogem e os abraços multiplicam-se porque só ao longe se consegue viver em pleno. Viver não, sobreviver. Nenhum dinheiro paga as nossas raízes, a nossa casa, as nossas gentes e pessoas, as nossas coisas. Nenhum trabalho nos dá a saúde de sermos felizes com o que é nosso.

 

Então apanhamos os autocarros da vida, porque tudo isto deixou de ser simples, e tudo é tão simples se quisermos todos.

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