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Domingo à tarde

Vais dizer-me que não gostas...

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18.Out.17

Saio porque tudo tresanda a memória

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Tudo isto cheira a memórias, boas é verdade mas não deixam de ser memórias. Há muito que não me perdia nos encantos da estação de comboios da minha vida. Na estação que me viu crescer até ao dia que deixaram de permitir que atravessássemos pela linha para ir para casa, vendo os comboios passarem como respeitáveis elementos da natureza, porque a Vila esteve sempre dividida ao meio desde sempre. Mas isto tresanda a memória por todos os lados, que o tempo nunca arrancou. 

Tudo se tornou mecânico e menos de carne e osso, e ainda imagino o Sr. Fernando, no alto da Torre (do lado esquerdo da foto, de Cotinelli Telmo, um dos maiores arquitectos de sempre de Portugal) a anunciar os comboios que vinham do Algarve, ou de Setubal, ou do Barreiro, não tendo tempo de vida para apanhar os que vinham de Lisboa. A cadência do tempo era outra e até guardas de nível havia, o senhor que levantava a bandeirola vermelha para indicar ao maquinista que podia arrancar. Se era prático nos dias de hoje? Não,não era. Mas a experiência de viver é muito mais rica sem máquinas.

Mas o que era mais presente para mim era o cheiro a óleo queimado dos comboios. Isso sim, transporta-me lá para trás de uma forma quase violenta. As pessoas, os sons, o que ganhei e o que perdi. Tudo. E por isso quero fugir, por um lado para deixar intacto um sítio onde vivi quase 30 anos e por outro porque preciso olhar de longe, como se um Deus se tratasse, para não perder o encanto que tudo isto tem para mim. O Sr. Fernando morreu faz anos mas só de pensar que morreu cheio destas boas memórias e sem ter tempo para viver esta efemeridade de tudo de hoje em dia, creio que foi feliz.

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