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Domingo à tarde

Não gostas, queres ver!

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18
Out17

Saio porque tudo tresanda a memória

David Marinho

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Tudo isto cheira a memórias, boas é verdade mas não deixam de ser memórias. Há muito que não me perdia nos encantos da estação de comboios da minha vida. Na estação que me viu crescer até ao dia que deixaram de permitir que atravessássemos pela linha para ir para casa, vendo os comboios passarem como respeitáveis elementos da natureza, porque a Vila esteve sempre dividida ao meio desde sempre. Mas isto tresanda a memória por todos os lados, que o tempo nunca arrancou. 

Tudo se tornou mecânico e menos de carne e osso, e ainda imagino o Sr. Fernando, no alto da Torre (do lado esquerdo da foto, de Cotinelli Telmo, um dos maiores arquitectos de sempre de Portugal) a anunciar os comboios que vinham do Algarve, ou de Setubal, ou do Barreiro, não tendo tempo de vida para apanhar os que vinham de Lisboa. A cadência do tempo era outra e até guardas de nível havia, o senhor que levantava a bandeirola vermelha para indicar ao maquinista que podia arrancar. Se era prático nos dias de hoje? Não,não era. Mas a experiência de viver é muito mais rica sem máquinas.

Mas o que era mais presente para mim era o cheiro a óleo queimado dos comboios. Isso sim, transporta-me lá para trás de uma forma quase violenta. As pessoas, os sons, o que ganhei e o que perdi. Tudo. E por isso quero fugir, por um lado para deixar intacto um sítio onde vivi quase 30 anos e por outro porque preciso olhar de longe, como se um Deus se tratasse, para não perder o encanto que tudo isto tem para mim. O Sr. Fernando morreu faz anos mas só de pensar que morreu cheio destas boas memórias e sem ter tempo para viver esta efemeridade de tudo de hoje em dia, creio que foi feliz.

28
Mai17

Comboio da vida

David Marinho

Às vezes vemos a vida a passar a alta velocidade. Vemos tudo desfocado, em linhas de luzes, sentados à porta de uma carruagem de comboio antiga. E é o vento que nos vai levando ao destino, e é ao vento que tornaremos. Pudera eu ter os medos de uma criança de 5 anos, e poder pela primeira vez, outra vez, pisar uma escola, reaprender a vida, reviver a vida, com a inocência que já não podemos ter. Poder ter as primeiras feridas, os primeiros amores, os aborrecimentos de uma vida tão distantes da realidade. É que o comboio vai saindo do apeadeiro, devagarinho, e vai dando tempo aos que chegam tarde, de agarrar os corrimões das escadas da carruagem e de os levarem ao próximo apeadeiro. E era ver o chefe da estação, o guarda de nível, a voz estridente do senhor que anunciava os comboios, o outro senhor que apitava para a partida com a bandeirinha vermelha, que acabou. Hoje ninguém espera por ninguém porque o tempo passou a ser efémero, ninguém se pacienta por nada nem ninguém, e quem falhou uma vez, muitas vezes não falha mais porque não lhe dão outras oportunidades. Não vivi para ter de ser substituído por robôs, nem lidar emocionalmente com latas que não me dizem nada. Falta-me os magustos, as festas de lição 100, os trabalhos manuais e os diálogos. Falta-me parar e apreciar onde estou, o que faço e para onde vou. Falta-me tanto e não me falta nada. 

 

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