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Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

25
Jul18

Arriscar ou não arriscar

David Marinho

Não sei se são dos meus olhos, da forma como vejo ou do sentimento que transmitem, mas há sítios que de tão impregnados em memórias, pessoas e emoções que estão, me afastam para que eu mantenha intacto todo o chão que pisei. Não quero perder a inocência do espaço e do tempo, e permanecer para sempre com a idade feliz, dos momentos felizes para que possa vir e sentir saudades. Quem permanece mais do que o próprio tempo, arrisca-se a matar o bom e o mau das coisas, e fartar-se rapidamente de tudo, até do ar rarefeito que nada acrescenta.

E vagueio perdido porque nada disto me é confortável, mas necessário. Tudo isto são mares que nunca naveguei, estradas que nunca conduzi mas que me levam a algum lado. As novas memórias irão preencher as más memórias, porque as boas tendem a ficar. A minha história irá ser conduzida ao seu expoente máximo, por entre desfiladeiros de sentimentos e emoções que só pode ser comparada com o apogeu. Ser feliz será o maior pódio, e não tenho a mínima dúvida que a felicidade será tão precisa no futuro como a água ou a comida.

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18
Dez17

O que podia ter sido e não fui

David Marinho

Imagino-me um pianista a entrar em palco numa sala pequena, apinhada de gente. E ao entrar, aceno, com os dois holofotes que me apagam e me isolam da multidão que só pede para me ouvir. Antes de me sentar, ajeito as abas de grilo do casaco, que aluguei numa casa de casamentos para a ocasião, e sento-me. Olho as sete oitavas que compõem a minha arte, a minha cultura, a minha vida e deslizo os dedos através delas, fechando os olhos para me fixar no que transmito e abrindo-os para fixar o trabalho que realizo. O silêncio vai abalando a sala que escuta com a mesma atenção que eu, respeitando a música e quiçá o seu intéprete. Abrem-se as cortinas do meu lado esquerdo, baixam quase todas as luzes do palco, para deixarem apenas uma no espaço que ocupo e ligam um projector do fim da sala. Projectam imagens minhas de criança, feliz e apaixonada, que vão sendo projectadas em silêncio com a melodia triste que vou lançando. Imagens que vão sugando a compostura das pessoas, e puxando para fora as memórias que sendo minhas, também já foram as delas. A música avança e avançam as imagens no tempo, onde agora sou um adolescente na puberdade a experimentar as primeiras tecnologias, as novas modas e os avanços e recuos da minha geração. Solto uma lágrima, uma das muitas que vou sentindo no fungar da plateia, que se imaginam a si e aos seus filhos por tudo que passaram. Não vejo as imagens mas a melodia puxa-me para o que é importante, puxa-me para a vida real, as memórias, o tempo que passou. As últimas imagens projectadas são do meu casamento, dos meus filhos, da minha vida grisalha que tanto trabalho me deu a cuirdar e a desenvolver. Termino com um Mi e um Dó tristes e deixo o som fluir por meros segundos que vão ecoando. Estendo as mãos nas pernas, levanto a cabeça e vou ouvindo ao longe um ecoar das palmas, de pessoas em pé de lenços suados na mão e sorrindo para aquilo que foi dos melhores momentos da sua vida. Faço uma vénia para os que se encontram do meu lado direito, outra para os do meu lado esquerdo e finalmente uma no meio, demorada, pelo agradecimento do reconhecimento do sentimento que consegui transmitir.

 

Era o pianista que queria ter sido e não fui, reconhecido por artes que não tenho. Mas pianistas podemos ser todos, se trabalharmos a arte de viver o melhor que pudermos, porque todos reconhecem o esforço a quem efectivamente nunca desistiu. E porque vamos sempre a tempo de sermos melhores pessoas - sempre.

20
Out17

A elegância dos tempos

David Marinho

Ao longe vejo chegar o comboio da alegria

Vem apressado o rapazote

apita e esfumaça, coitado

de linho vestido e um laçarote.

 

Os carris gritam a cada passagem

a madeira range, o horizonte desaparece

e o apito que era de longe, aproxima-se

ao chegar nem sei o que se parece.

 

As carruagens alinhadas

adornadas a pinho e cortinados

multiplicam-se vénias, chapéus e elegância

e bancos impecavelmente bordados.

 

E agora tomo o verso a este século

onde tudo é uma grande mentira

onde a elegância passou a desmazelo

e a memória, essa ninguém ma tira.

20-10-2017

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