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Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

12
Mai18

Não devíamos poder dizer adeus

David Marinho

Não devíamos. Ninguém tem o direito de fugir de nós sem aviso prévio, em carta registada e dando uns 150 anos à casa, quando já teremos partido e a dor passada a outros - só o egoísmo afasta o espectro da morte mas vai aproximando outras bem piores, que nos vão matando devagarinho. Seria tão fácil desligarmo-nos de um familiar, de um amigo, de um amor para a vida, como desligamos a luz ou fechamos a porta de casa. Perder no ouvido a voz timbrada de alguém que nos é tanto, é como perder o motivo que nos leva a ficar tantas vezes.Ninguém está preparado para perder o hábito de amar pois não? Mas é este o lado mau da vida, de nunca saber compreender muito bem o que é isto da morte e do fim. Que não há nada que possa substituir uma pessoa, por muita tecnologia e algoritmo que possa existir. E andamos nós a chatear-nos com merdas que só existem na nossa cabeça porque às vezes não sabemos preencher muito bem o tempo. Isso e um coração vazio, uma alma morta por dentro que faz desaparecer um brilho que só existe porque alguém desistiu de lhe dar luz e de viver.

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16
Mar18

As pessoas que nos fogem pelos dedos

David Marinho

Faz hoje 5 anos que escrevi isto:

 

"Não encontro palavras para descrever o que a vida por vezes é. Não encontro paralelo na história os momentos e a hipocrisia que a vida, por vezes, tem. Mas senti no corpo, no profundo do meu ser, nas lágrimas, o que a vida nos pode fazer. E por isso não compreendo que a mesma tenha a validade que tem para uns e para outros não. É a vida! E gostaria, não por estes dias e muito menos por hoje, que vivêssemos um bocadinho acima das nossas possibilidades porque por mim a morte seria de cansaço, de vivência e de limite. Não assim, tão estupidamente. Escasseiam as palavras para o choque, para a negação, para os vagos pensamentos.
Se ainda não o tinhas feito, que seja agora: Descansa em Paz Palma, um dia encontramo-nos todos!"

 

João Palma era o nome dele. Um colega exemplar de faculdade, sorridente, amigo e que não lhe conheciam vícios nem maldade. Faleceu a dormir, depois de dizer à avó que se sentia cansado depois de um dia de aulas. A vida não foi injusta, que a justiça divina é uma coisa complicada de assimilar. Foi antes ingrata, porque mesmo que tenha sido santa a morte, leva sempre os bons, que não lhe souberam fazer mal nenhum.

 

Ao mesmo, o Facebook recordou-me outro amigo meu, Ricardo Lagarto (era mesmo o apelido, atenção), mais antigo - muito mais - militar, que faleceu no rio Tâmega em 2011. Deixou toda uma vila em choque, sobretudo quem privou com ele de perto durante quase 15 anos. 

 

Quando uma pessoa julga que esquece, estas coisas fazem-nos regressar à terra.

pexels-photo-121598.jpeg

 

12
Mar18

Morreu o Almeida

David Marinho

Estava eu e o Zé na paragem dos autocarros e veio ele com a conversa do costume, ou pelo menos eu achava:

 

- Oh David, sabes lá - e olha para o fim da rua a ver se vem lá o autocarro.

- O quê?

- Conhecias o Almeida? Aquele filho de 30 putas?

- O do café Amália? Conhecia.

- Esse, esse!

- O que é que tem?

- Fez-me uma desfeita, esse cabrão!

- O Almeida? Mas era tão bom rapaz.

- Pois era mas quando achas que conheces as pessoas...

- Mas o que aconteceu, homem?

- ...morreu, foi o que aconteceu...não se faz

 

O Almeida era um tipo às direitas e para o bebedolas do Zé era ainda mais, porque lhe oferecia um copo de vinho na compra de outro - o Zé dizia que aquilo era 50% de desconto e que ninguém o negasse. O Café Amália era a sua casa desde os tempos de Ultramar quando foi combater para lá contra a sua vontade. Quem se lixou foi a mulher dele, Constança, que de doméstica e domesticada, passou a patroa, doméstica e com o credo na boca à custa do seu homem, com quem casara em 67.

 

E o Zé era o borracholas da aldeia. Bebia desde os 9 e dizia que o café era o pior dos pecados dele, porque não entendia porque raio não se tinha feito café com álcool. Dizia-se o Ronaldo das doenças só porque era o melhor do mundo a fintar a cirrose e a morte.

 

Eu quem sou? O tipo que segurou sempre o Zé para que a GNR nunca o fosse encontrar na valeta, caído de bêbado. Isso e para o levar ao hospital quando a doença o atacava e ele se safava uma vez mais, atracando depois a bom porto no Café Amália para comemorar com bebida o que a bebida ainda não fora capaz de fazer: matá-lo.

 

Constança...agora já podes ir buscar a indemnização pela morte do Almeida. Senão vou lá eu que o Zé ainda gasta tudo em vinho. Do carrascão.

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