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Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

18.Dez.17

O que podia ter sido e não fui

David Marinho

Imagino-me um pianista a entrar em palco numa sala pequena, apinhada de gente. E ao entrar, aceno, com os dois holofotes que me apagam e me isolam da multidão que só pede para me ouvir. Antes de me sentar, ajeito as abas de grilo do casaco, que aluguei numa casa de casamentos para a ocasião, e sento-me. Olho as sete oitavas que compõem a minha arte, a minha cultura, a minha vida e deslizo os dedos através delas, fechando os olhos para me fixar no que transmito e abrindo-os para fixar o trabalho que realizo. O silêncio vai abalando a sala que escuta com a mesma atenção que eu, respeitando a música e quiçá o seu intéprete. Abrem-se as cortinas do meu lado esquerdo, baixam quase todas as luzes do palco, para deixarem apenas uma no espaço que ocupo e ligam um projector do fim da sala. Projectam imagens minhas de criança, feliz e apaixonada, que vão sendo projectadas em silêncio com a melodia triste que vou lançando. Imagens que vão sugando a compostura das pessoas, e puxando para fora as memórias que sendo minhas, também já foram as delas. A música avança e avançam as imagens no tempo, onde agora sou um adolescente na puberdade a experimentar as primeiras tecnologias, as novas modas e os avanços e recuos da minha geração. Solto uma lágrima, uma das muitas que vou sentindo no fungar da plateia, que se imaginam a si e aos seus filhos por tudo que passaram. Não vejo as imagens mas a melodia puxa-me para o que é importante, puxa-me para a vida real, as memórias, o tempo que passou. As últimas imagens projectadas são do meu casamento, dos meus filhos, da minha vida grisalha que tanto trabalho me deu a cuirdar e a desenvolver. Termino com um Mi e um Dó tristes e deixo o som fluir por meros segundos que vão ecoando. Estendo as mãos nas pernas, levanto a cabeça e vou ouvindo ao longe um ecoar das palmas, de pessoas em pé de lenços suados na mão e sorrindo para aquilo que foi dos melhores momentos da sua vida. Faço uma vénia para os que se encontram do meu lado direito, outra para os do meu lado esquerdo e finalmente uma no meio, demorada, pelo agradecimento do reconhecimento do sentimento que consegui transmitir.

 

Era o pianista que queria ter sido e não fui, reconhecido por artes que não tenho. Mas pianistas podemos ser todos, se trabalharmos a arte de viver o melhor que pudermos, porque todos reconhecem o esforço a quem efectivamente nunca desistiu. E porque vamos sempre a tempo de sermos melhores pessoas - sempre.

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