Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

01.Set.18

Quantas vezes?

David Marinho

box-memories-nostalgic-5842.jpg

 Quantas vezes me sentei nesta mesma secretária à espera que fluísse a vida nos meus dedos?

Quantas vezes fantasiei em estar numa casa totalmente nova, gozando-a e apreciando-a, pleno de segurança e felicidade?

E os filhos e os netos, uma vida em pleno que é tão válida como os sonhos que passam a desejos, e de desejos que passam a realidade. Nada é mais perfeito do que termos o controlo das fases da nossa vida, mesmo que isso implique perder a noção de surpresa e imprevisibilidade. E gostaria apenas de, ao olhar para trás, com 50, 60 ou 70 anos de apenas recordar tudo como um flash fotográfico, e ter a consciência que agora vou ser ainda melhor do que já fui e ter essa certeza de que agora vale muito mais a pena, descansa-me. Assusta-me que olhemos para a infância com um saudosismo perigoso, de quem acha que, mais do que o antes ter sido bem melhor, é o agora ser uma verdadeira merda. E que agora há pouco a descobrir e que somos fuzilados por responsabilidades que, enfraquecendo a nossa posição, provocam mazelas na nossa vida e na dos outros. É que o tempo traz-nos uma visão mais desgastada e despachada, quase como se já tivéssemos visto tudo, feito tudo, experimentado tudo. E eu sei que tudo isto custa mais quando temos de preencher um espaço que foi totalmente preenchido com as nossas coisas e que, ou tiramos as memórias para preencher com novas, ou simplesmente esperamos que nos levem de vez.

E quem está disposto a abdicar?