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Domingo à tarde

Senta-te, desfruta e serve-te enquanto vou ali fazer uma sestinha

01.Nov.18

Urgência de morrer

David Marinho

Quem nunca teve medo de crescer depressa, que atire a primeira pedra. Quem nunca tocou na ferida, à espera que ela sarasse sozinha como que por magia, não sabe a desilusão que é saber que tudo leva o seu tempo, demore o tempo que demorar. E que no fim fica uma cicatriz para nos lembrarmos que, independentemente da ferida, somos frágeis e podemos vacilar a qualquer momento.

Às vezes pergunto-me porque defender um rumo nosso é tão difícil, mas seguir o rebanho é tão fácil. Que, entrando numa espécie de sistema instituído, tudo corre bem e parece oleado mas o rumo que traçamos demora a chegar ao fim, e nem sabemos em que condições.

O tempo é algo que me assustou sempre, porque quero ver as coisas boas agora, os remendos feitos agora, que a máquina carbure agora. Não gosto de estar numa espera interminável à espera que as coisas funcionem, mesmo que estejamos lá para isso. Ninguém devia ter o direito a ficar à espera das boas coisas. Parecem testes que a vida nos traz para nos colocar à prova. E eu não preciso de me pôr à prova: coloquem-me um livro, a mulher que eu amo, um bom café e uma vista esplendorosa para o mar à frente dos olhos, e vão ver o quão feliz e bem eu fico.

É por isso que gosto das coisas simples, porque não quero esperar mais. Quero sentir o doce beijo do vento, a ternura dos abraços do salgado do mar e alcançar com a vista o que os meus passos não alcançam.

Inventámos nomes de doenças para todos aqueles que desesperam. Ninguém devia desesperar, porque a urgência de morrer não existe. Quer dizer, de tanto esperarem, muitos acabam por preferir uma coisa à outra mas não devia ser assim.

Mas pior que crescer depressa, é ter de crescer à força. Porque tudo e todos têm o seu tempo, demore o tempo que demorar.

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